quarta-feira, 11 de março de 2020

De Leonardo Siqueira - Planos de Alfabetização - Douglass North Papers

De Leonardo Siqueira  - Planos de Alfabetização - Douglass North Papers

Com o PIB do Brasil - e do resto do mundo - sofrendo um choque, começam os pedidos para um GRANDE PLANO DE INDUSTRIALIZAÇÃO DO BRASIL.
Vale relembrar quando um Nobel em Economia, Douglas North, visitou o Brasil e foi vencido pelas ideias desenvolvimentistas de Celso Furtado. 
Em 1961, o governo americano estava decidindo se financiava ou não o "GRANDE PLANO DE DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE".
A pobreza no Nordeste brasileiro atraia atenção da imprensa americana e John Kennedy, recém eleito, disse que um acordo de cooperação com o Brasil era prioridade. 
O governo americano, então, enviou Douglas North ao Brasil por 3 semanas.
North, professor de Economia da Universidade de Washington, veio conhecer o plano desenvolvido pela SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) para dar seu veredito ao governo americano. 
Quem tinha criado o plano? Celso Furtado, um economista brasileiro que acreditava no Estado como motor do desenvolvimento e que tinha fundado a Sudene em 59.
O OPOSTO de North que dava mais valor ao PAPEL DAS INSTITUIÇÕES, das normas jurídicas, das regras do jogo... 
North Conheceu os planos de Furtado.
Na visão da Sudene (e de Furtado), a massiva industrialização do nordeste seria O ÚNICO CAMINHO PARA A REGIÃO ALCANÇAR O DESENVOLVIMENTO e absorver produtivamente o excesso de força de trabalho
Que surpresa não? rs. 
Após 3 semanas pelo Brasil, Douglas North tem seu veredito: "esse plano não vai dar certo”.
A razão era muito simples: nordeste não tinha mão de obra qualificada, não tinha matéria prima para fazer bens industriais, não tinha mercado consumidor. "This is not an industrial area". 
North diz que faltaria nos planos da Sudene UM PLANO DE EDUCAÇÃO PRIMÁRIA, uma vez que a ênfase dos projetos educacionais de Furtado recai sobre o ensino superior.
ERA MELHOR EDUCAR AS PESSOAS (como sugeria a literatura surgida na época) e descobrir as vantagens da região. 
Passaram 70 anos, resolvemos seguir as idéias de Celso Furtado que virou Ministro do Planejamento entre 62 e 64 e ignorar Douglas North.
O assassinato de John Kennedy em 63 acabou com qualquer possibilidade de acordo de cooperação, que além de financeira, também seria técnica. 
70 anos depois, o nordeste AINDA É A REGIÃO MAIS POBRE DO PAÍS. Sem indústria e sem educação básica.
E Douglas North ganhou UM PRÊMIO NOBEL em economia em 1993, com seu trabalho em Economia Institucional, área da economia que foca nas normas, regras sociais e jurídicas. 
Quando disserem que o caminho para o Brasil ficar rico é um plano que tem como prioridade a industrialização do país, com subsídios e estímulos e deixando de lado o AMBIENTE DE NEGÓCIOS E EDUCAÇÃO PRIMÁRIA é só lembrar Douglas North.
Tentamos isso por 70 anos sem muito sucesso. 

É baseado em material formado por documentos originais que se encontram na coleção “Douglass North Papers” da Duke University Library. Marcos Lisboa também conta essa história

sábado, 29 de fevereiro de 2020

A Mexicanizacao do Brasil. De Leonardo Siqueira

"Agora que os juros estão na mínima histórica de 4,25%, inflação ~3,50% e a dívida está se estabilizando, o BRASIL vai decolar".

Quem acha isso SUFICIENTE talvez não saiba que, em 2002, o México passou pelo mesmo processo que o Brasil está passando. E NÃO DECOLOU...

Por que?

Por volta de 2002, o México daquela época era muito parecido com o Brasil de hoje.

O país diminuiu sua dívida externa, reduziu a inflação de 130% ao ano para para 4% e a taxa de juros, que estava em mais de 25% em 1997, caiu para 3%.

Com isso o risco-país despencou.

Muita gente achou que isso era o suficiente: "nem Deus para a economia mexicana".

O problema era que o México era um país confuso e atrapalhado, sem consenso sobre as prioridades e entregue a diversos grupos de interesse.

Isso refletia em um congresso extremamente dividido.

Resultado: deixou-se de lado todas as reformas para aumentar a produtividade do país.

- A reforma tributária não avançou.
- O regime da PEMEX (Petrobrás mexicana), para atrair investimentos, não passou.
- As distorções setoriais não diminuíram.

O resultado é, ASSIM COMO O BRASIL, um crescimento medíocre: De 2002 a 2017, o México cresceu aproximadamente 2,0%.

Sendo que - ASSIM COMO O BRASIL - parte desse crescimento é simplesmente mais gente entrando no mercado de trabalho.

Desde 1980, ASSIM COMO O BRASIL, a produtividade do México não aumenta. Hoje, é a mesma de 4 décadas atrás.

E se em 1980, um mexicano tinha 45% da renda americana, em 2019, esse valor caiu para 35%. O México que já era mais pobre que os Estados Unidos, ficou mais pobre ainda.

Isso nos ensina algumas lições.

Assim como no México, o Brasil tem tido avanços significativos e dificuldades nas reformas.
Juros de ~4%. Inflação abaixo da meta (4,25%), menor a dívida externa e menor risco país. Mas faltam as reformas da produtividade.

Sem falar que essa ideia de que basta reduzir os juros e controlar inflação pro país decolar era exatamente a mesma ideia da Nova Matriz Macroeconômica de Dilma.
A diferença é que eles fizeram aquilo na marra e de maneira não-sustentável. Mas a concepção não é muito diferente.

Dito isso. Precisamos de:
- Abertura comercial para dar produtividade.
- Reforma tributária para simplificar esse sistema complexo.
- Melhorar ambiente de negócios para facilitar abertura de empresas.
- Reduzir distorções setoriais que protegem setores ineficientes.

Hoje em dia, essa agenda de reformas nem é mais tão novidades assim. Todo mundo meio que sabe o que precisa ser feito.
E por que demora para avançar?
Porque falta consenso sobre as prioridades dos gastos públicos no país. Onde se gasta em tudo, nada é racionado...

Apesar desse "Novo Brasil", se não fizer as reformas necessárias, a economia brasileira vai sofrer a Mexicanização da Economia.
O Termo foi criado por Ilan Goldfajn em 2006, quando era Diretor do Banco Central.